segunda-feira, 19 de outubro de 2009

crítica sobre a performance: Violenta-entre 4 paredes-segunda etapa-interação dos atores com produto A gerando produto B

"Violenta entre quatro paredes é uma violência "à seco". Em seu estado puro, no que tem de mais essencial e fugidio.
Uma violência tão pura, que é capaz de surgir dos atos menos impensáveis. Das manifestações mais sinceras de carinho (abraços afetuosos), dos movimentos mais inusitados (auto-agressão), dos pedidos corriqueiros de silêncio (todo o mundo já ouviu um 'psiiiii' inconveniente).
Uma performance jovem, com atores no auge de seu fôlego, no clímax de seus corpos, que mesmo com toda a sua jovialidade já foram, são e serão, como todos nós, violentados.

Palavras, pedidos, histórias que violentam. Tudo na vida pode nos violentar! E a arte da performance sempre violenta nossa vida cotidiana.

Uma performance em processo, processo de amadurecimento, de endurecimento. As imagens primeiras (produto A), se misturaram violentamente, como não poderia deixar de ser, com a performance viva (formando o que será o produto B). Aqueles corpos jovens - violentados por abraços convulsivos, repetições alucianadas, palavras incisivas, silêncios impostos - num ritmo brutal e atual, acentuado pela ausência de trilha sonora, conseguiram interagir e dialogar com um ritmo brutal, mas virtual das imagens primeiras. Em um diálogo íntimo e espotâneo, atores se violentavam e eram violentados acompanhando e reafirmando um processo pelo qual já haviam passado. Vemos então passado e presente que se encontram, em um tempo puro, no tempo da vida, vida que é pura violência.

A performance se completou no "Meio". O meio da performance foi, na verdade, o final dela, pois este "Meio" violentou e matou a própria perfomance. A partir daí, deste ponto no meio do caminho, o ritmo que antes era convulsivo, violento, o tempo que antes era puro passou a ser sincrônico, progessivo. A perfomance que era dura, seca e impessoal se transformou em um teatro cômico e blando, quase um stand-up aonde os atores se individualizavam e competiam pela atenção do público, que já possuiam. Neste momento fui violentada. Me sentei no chão para não ver o fim cômico, quando poderia ser trágico, da performance que me violentava e me dava prazer.

Mas assim como a vida, a arte também nos violenta. O choque foi tamanho, que me levou a escrever esta breve crítica, pois como diria o grande poeta, que sofreu toda uma vida como "tísico profissional": sem choque não existe necessidade nenhuma de crítica. O choque da interrupção abrupta da performance, foi violento como um coito interrompido, como o último pedaço de papel higiênico do rolo, como a última carta que sempre desmorona o castelo. Mesmo violentada, espero pelo produto final deste trabalho em progesso, o momento em que a performance se juntará ao tempo virtual do vídeo, sendo atualizada no tempo real de uma instalação. Esperamos ansiosos por isso, pois já que não podemos evitar a violência que a vida e a arte nos impõe, tentemos, ao menos, obter algum prazer neste fluxo de sofrimento. Masoquismo, talvez? Por quê não?"

Marce.

5 comentários:

Patrícia Teles disse...

maravilhosa!

Caio Riscado disse...

uma delícia de viver.

Anônimo disse...

- Marce -

Marcela Tavares

(filósofa e crítica)

Diogo Liberano disse...

obrigado pela assinatura Marcela Tavares!

Isadora disse...

obrigada Marcela!! Estava atrás dela.