domingo, 24 de outubro de 2010

domingo, 17 de outubro de 2010

poeira entre o encontro das duas paredes da sala de estar

a verdade é que tá tudo correndo e a gente usa isso como pretexto para não se encontrar. está acontecendo com todos nós e eu acho digno que neste momento de clareza - minha - eu venha até vocês manifestar nosso erro. a nossa mútua falta de noção. sabe? não adianta dizer que não deu, não adianta empurrar a vida ao diante. ela acontece agora, neste exato minuto ela não espera o amanhã. percebam: nossa vida nunca será o futuro, nunca será o que poderia ser ou o que pudera ter sido. nossa vida sobrevive pendurada em segundos. neste no qual escrevo, e no seguinte que só é porque já derrubou o anterior e se fez presente, se fez grito.

eu não sei porque me dou ao trabalho de lhes dizer sempre o mesmo. me sinto mal, me sinto forçando a barra. e há tanto a ser feito. faxinar a sala a cozinha e o banheiro. colocar os objetos em seus respectivos lugares. por que é que temos tantos objetos? sinceramente, às vezes eu acho que temos medo de nos ver de verdade. medo de nos tocar, medo de compartilhar a pele e, inevitavelmente, o sabor do fracasso. por isso o ralador de cenoura, por isso os tapetes, por isso o porta copos e os sabonetes líquidos. por tudo isso as esponjas.

nossos encontros são utopias repentinas. queimam-se no tempo de um flash. somem sobre si mesmas. eles acontecem e tão rápido se consomem e morrem. eu (acho que) estou cansa(n)do da gente. mas é provável que vocês sequer venham a ver (pode ser que ela venha a ler tudo isso em novembro apenas). é provável que a outra veja por estes dias e ainda assim finja nada ter visto. é provável que neste exato instante, em que ela - você - lê isso, venha a querer se vingar de mim escrevendo algo ainda pior do que isso.

ele vai soltar algum comentário histriônico. a outra vai mudar de assunto. sim, juntos nós somos muitos. mas incapazes de sermos quem somos, de fato.

mas o que vocês não percebem é que somos filhos da psicologia reversa. somos filhos do contra. somos filhos do amor disfarçado em ódio.

eu vou fazer um café, arrumar uma ou outra coisa, lavar uma camisa, sei lá.

eu vou tentar fazer o meu domingo terminar uma semana que já terminou, mas que eu preciso acreditar que ainda está para começar.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

doce

Lar,
onde estão os doces da casa? Abri a geladeira e não encontrei nada. Sim, eu sei. Ele não pode com doces, mas eu necessito. Onde está nossa doçura de ontem? Eu não sinto mais dor. Vocês não mais batem à porta do meu quarto para interromper minhas meditações. Quero mais interrupções. Sempre reclamei, mas sinto falta dela falando da minha falta de amor e do meu medo de qualquer coisa.  Ninguém abriu a janela e eu estou alérgica aqui. Não posso abrir a janela?  Alguém me dê um limite. A louça está acumulada. A cozinha está nojenta. As estantes. Bom, essa discussão ja tivemos. Mas ninguém varreu o chão desde que elas cairam. E estão lá. No chão. Com tudo que estavam sustentando. Tudo no chão.  Estou pensando em comprar um bichinho outro. Queriamos o coelho, sim. Mas ele não volta, você precisa entender isso. Alguém deixou cair e fim. Quando as coisas caem elas simplesmente caem e partem. Pelo menos penso assim para conseguir esquecer o fucinho dele. Era bonito né? Era essencial. Vou comprar chocolates para todos, alguns diets, claro. Alguns doloridos, claro. Alguns anti-alergicos, claro. Alguns com saudade, claro. Alguns com abraços, claro. Alguns palavras, claro.  Vou encher a geladeira. Mas, por favor,  alguém lave a louça.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

dor de coluna

eu ia desejar feliz dia das crianças.
mas faz tempo que não venta aqui dentro de
casa.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

não há lugar para o tempo, por isso ele corre, está em busca

   nao-lugar-02

gente, o inverno passou
a chave foi passada
não tem isso de tempo
a gente também corre
a gente encontra a sala

alguem a viu?

acordei
pisei no chão sem madeira
desci as escadas sem corrimão

e dei de cara no esterco
a grama matinal no lugar da sala

do jantar
do ser estar permanecer durar
como alguém normal
que acorda
desce as escadas
e encontra a sala

e não a grama,

que sob ela morava.

 

desculpem, é que eu me perdi de casa
estou perdido com o laptop buscando algo tipo parede para me recostar
mas só encontro esta tela
ela é tudo que hoje eu posso ler

eu posso ser

ela onde eu posso estar