quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Eu calei porque...

Eu calei porque nós não brigamos mais. Calei pra te ouvir, calei porque você me ouviu tanto a ponto de me entender. É que eu me calo quando estou feliz. Eu que tanto falo me calo pra mostrar felicidade. Não reclamo em silêncio, não faço luto, meu silêncio é sempre felicidade. Minha reserva é falada, então calo pra te mostrar meu amor. Eu calei porque não preciso mais gritar que é pra você se preocupar comigo, você já sabe. E eu me calo de orgulho. Eu calei porque na cama o silêncio se faz necessário. Eu calei porque você me calou com um beijo quando outra discussão estava prestes a começar. Eu calei porque você me orgulha a cada dia que passa. Eu calei porque prefiro escrever. Prefiro te dizer em palavras o quanto quero que essa paz silenciosa dure pra sempre. Ainda que pra sempre seja um silêncio na minha boca. Eu calei porque vi que quando mais te amo é em silêncio, que você é mais lindo em silêncio. Eu calei porque prendi a respiração quando te vi do outro lado da rua, me esperando em silêncio. Fiz silêncio em tua homenagem, parei de respirar em sua homenagem. Você anda merecendo meu silêncio mais puro. Eu calei porque essa é a minha maior forma de sacrifício. Eu calei porque meus gemidos nunca serão suficientes, eu calei porque minhas palavras nunca serão suficientes, eu calei porque meus clichês nunca serão suficientes. Eu calei porque você me pediu silêncio em silêncio. Eu calei para você calar também. Abri a boca para chegar até você e me calando num soluço descobri: você me disse mais coisas que qualquer palavra poderia dizer.

Rosa, a Estela.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Eu calei porque...

Eu calei porque exatamente naquele momento a porta se abriu. Eu calei porque com a porta aberta nada mais fez sentido. [conseguimos manter a porta fechada durante anos]. Então, lhe pregunto: todo o nosso esforço foi em vão? Eu calei porque com a porta aberta vejo que fomos obrigados a esmagar nossa relação, pois nos preocupamos demais com coisas pequenas. Eu calei porque ao ver a porta aberta percebi que nunca soubemos dar valor ao todo. Eu calei porque percebi que todas as nossas brigas sempre foram pequenas perto do "nosso amor". Mas só percebi isso agora e, agora, o agora já é tarde demais. Eu calei porque com a porta aberta não tenho mais como lhe prender dentro de casa. Com a porta aberta você está livre. Vai! Corra pelas ruas, grite, denuncie o cativeiro que fizemos de nossa própria "moradia". Vá aos jornais, exponha nossa história, não se esqueça dos detalhes: das surras de vassoura, dos copos quebrados, das fotos rasgadas, dos livros no chão e do cachorro latindo. Exponha nossa intimidade: fale de quando lhe gozei na cara e de quando me arranhou o corpo inteiro. Ah! Fale também das vezes em que andamos vendados, das velas que derreteu em meu peito. Fale de nossos vícios. Fale dos cigarros que apagamos em nossas mãos por preguiça de alcançar o cinzeiro. Fale de nosso corpo. Desenhe, principalmente o meu, por inteiro. Fale também do nosso sexo sujo, mas dele fale com amor e também de forma doce e irônica, pois você é PH em descrever as coisas desse modo. Conte a todos da redação sobre o dia de aniversário do nosso casamento. Conte também sobre como passamos a ter este animal de estimação que já citei nesta breve carta. Conte como escolhemos as tintas para pintar a CASA e também como fizemos para pintá-la. Você, com certeza, sabe do que eu estou falando. Quer dizer, não sei. Depois que a porta se abriu e eu me calei, acho que não posso dizer que lhe conheço. Fizemos um acordo, tínhamos um trato e você furou! Eu calei tampém por isso. Quando ouvi a porta abrindo, saquei que tudo aquilo que você havia me dito era, na verdade, a imagem que você criou para você. É uma boa imagem, hein? Confesso que caí direitinho, comprei tudo e nem se quer pedi nota fiscal. Ou seja, me calei por decepção. Eu calei porque eu odeio esse cachorro, mas não sou também capaz de botá-lo na rua ou dá-lo para alguém. Eu calei por isso, porra. Porque a porta abriu, você foi, mas a porra das suas coisas ficaram. E toda vez que eu tropeço nelas eu sou obrigado a, mais uma vez, calar. Eu não posso nem convidar outras mulheres para vir a CASA... A porra da sua alma, sei lá se isso existe, ainda mora aqui. Outro dia, eu calei quando no banheiro dei de cara com a sua calcinha pendurada na torneira do chuveiro. Não deve estar te fazendo falta, né? LIXO. Eu calei porque tomei a decisão de jogar tudo o que é seu e também tudo o que um dia chamamos de nosso no lixo. Eu calei, mas, na verdade, essa é a última vez que lhe escrevo e espero, do fundo do meu coração, que compreenda e não insista em manter contato. Eu calei e, por isso, resolvi escrever. Alguns informes: vou vender a CASA e tudo que tem dentro dela vai junto. Vou comprar uma CASA nova, só minha. Vou trocar de cidade, telefone, nome e sexo. Vou tomar 444 banhos para ver se consigo limpar a sujeira sua que ainda resta em mim. Vou também pintar o cabelo, fazer as unhas, comprar sapatos novos e também um novo par de óculos. Desde que você passou pela porta eu não vejo mais nada, pois os meus óculos você que havia comprado. LIXO. Vou escutar novos artistas, mudar de estilo. Vou levar o cachorro, mas agora ele tem outro nome e não me venha com essa história de "nosso filho" para cima de mim. O cão agora chama-se Resto e é a única lembrança que vou guardar de você. Eu calei porque também não tive coragem de ir lá fora, te buscar pelas mãos e pedir mais uma chance pra gente. Sou um covarde. Eu calei porque a porta abriu e você saiu correndo, sem olhar para trás.

Eu chorei porque...

Eu chorei porque dói quando não sai uma palavra dos meus dedos, eu chorei porque me violenta não sentir absolutamente nada que seja digno de se organizar em frases. Eu chorei porque às vezes choro pra ter tinta pra escrever. Eu chorei porque a minha tinta é diluída em lágrima. Eu chorei porque eu choro quando escrevo e dói, doi tanto pensar que talvez tudo isso seja em vão. Eu chorei porque essa dor sobe pela garganta e eu sinto vontade de gritar tudo isso que tenho a dizer, mas não consigo. É como se quando eu começasse a chorar o mundo todo tapasse os ouvidos e de nada me adiantaria gritar. Por isso escrevo. Não sei cantar, por isso escrevo. Não tenho coragem pra gritar, por isso escrevo. Não tenho coragem de amar, por isso escrevo, Não tenho vontade de andar, de fazer, de chutar nada, por isso escrevo. Eu chorei porque eu só sei escrever e isso é tão difícil que choro toda vez que faço. Eu chorei porque eu nunca tenho motivos, mas ainda assim as palavras vem na minha cabeça como se fossem explodir a qualquer momento. Eu chorei porque não tenho medo de balas perdidas, mas sim de palavras. Eu chorei porque um dia eu não tinha caneta, no outro não tinha papel e se um dia eu não tiver mais palavras? Eu chorei porque sonhei que minhas mãos derretiam. Me deixem surda, me deixem muda, mas não me deixem sem minhas mãos. Eu chorei porque minha mãe tem problema de vista e se eu fico cega vou chorar. Eu chorei porque meus livros crescem cada dia mais, mas não cresce em mim a minha vontade de que o meu esteja na sua estante. Eu chorei porque quando me falta amor eu escrevo, quando me sobra amor eu escrevo, quando me dão amor eu escrevo, quando eu sinto saudade eu escrevo. Mas escrever dói. Eu chorei porque descobri que o que me dói não é o amor e sim a vontade de escrever. Eu chorei porque entendi que na verdade, o que me dói é nunca ter o que dizer e me sentir estuprada por isso que sai de mim sem o menor controle. Eu chorei porque muita gente nunca me entendeu, nem acreditou. Eu chorei porque eu li alguma coisa que dizia sobre papéis em branco e quartos vazios. Toda vez que escrevo é como se eu tivesse um quarto cheio de coisas que não consigo enxergar. Eu chorei porque fiquei meses, anos sem dizer uma só palavara e ainda assim não aprendi a cantar. EU chorei porque as frases dos outros se amontoam em mim e eu não consigo escrever. Eu chorei porque me sacudiram e só o que sobrou no fundo do pote foram palavras. Eu sobrei porque queria desenhar e não escrever. Eu chorei porque queria amar e não escrever. Eu chorei porque eu queria andar e não escrever. Eu chorei porque só queria pensar, sem escrever. Eu chorei porque de verdade, eu juro, dói, dói demais sentir essas coisas que . Essas coisas que. Exatamente elas que me fazem chorar. Eu chorei porque toda vez que as lágrimas escorrem elas me dizem alguma coisa. Eu chorei porque quanto mais turvos meus olhos mais claras ficam as minhas palavras.

Rosa, a Estela.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Eu gritei porque...

Eu gritei porque falar não foi suficiente. Porque foi, e ainda é preciso, saber que você cresceu e de coelho se transformou em girafa. Eu gritei porque nessa troca, sem aviso prévio, você passou a ocupar um espaço enorme dentro de mim. Agora você está aqui dentro e eu não posso mais reclamar do vazio. Agora você está aqui dentro e as coisas estão parecendo completas. Mas não. Eu gritei para tentar trazer você comigo, na verdade. Eu gritei, pois juntos invertemos a ordem normal das coisas. Ou seja, agora que você está aqui dentro já não é mais preciso parir. é que você nasceu antes da concepção. nasceu assim, no susto, sabe? Eu gritei porque quando vi você transbordar por meus pequeninos furos, nada pude fazer ou pensar. Eu gritei para externar a dor que agora sinto. Eu gritei porque falar não foi suficiente. Porque agora estou pesada, gerando um filho que nunca mais vou tocar, ninar beijar, amar fisicamente. Eu gritei na hora de ir embora, descendo daquele ônibus gelado em buscado do calor do seu abraço. Eu gritei por mais esse laço. E, embora acredite em frutos verdes, estou sem graça de comer-lhe o último pedaço. Eu gritei porque estou grávida de algo que já esta na escola. de algo que já pensa, lê, formula questões e, mais para frente, vai também se questionar se do meio se vai para frente ou para trás. Eu gritei porque estou grávida do jardim zoológico e dentro de mim não há espaço para tantas jaulas e gaiolas. Mas você está aqui. Tomando meu ar, minha comida, meu suco gástrico. Ás vezes, em ruas muito movimentadas, você chuta. Eu sei, já compreendes o perigo, separando o seguro do ameaçador. Eu gritei porque agora que estou gorda de você vou precisar entrar em regime de dieta. Eu gritei porque não quero emagrecer, mas será preciso. Pois tomei a decisão de lembrá-lo em doses pequenas. Não posso abortar mais uma história de amor.

domingo, 25 de outubro de 2009

eu calei porque...

porque acabou, mas na verdade eu não reconheço o fim, porque era bom estar com você todos os dias, bom respirar junto, suar junto, pensar junto, repensar. Porque repensei e achei melhor calar. Porque do nada as coisas acontecem e a gente nem percebe. Porque talvez tenha sido a semana mais rápida da minha vida e quando fui tomar o café vi que ele já tinha ficado para trás naquela tarde chuvosa. A música já estava decorada, o sorriso já estava na cabeça e as alegrias e os nervosismos já eram identificados com facilidade. Usei a calça dobrada de um jeito diferente naquele dia e só você reparou e quando vi estávamos brincando feito crianças de 2 anos de idade e só a gente achava isso bonito. Porque ninguém mais sabia falar desse jeito, só a gente. Porque se não estamos juntos acho melhor esquecer. Porque na verdade tudo que fizemos foi gritar, melhor calar por um tempo então e ficar assim com vocês, no silêncio, é difícil e fácil, bonito e feio, alegre e triste e talvez necessário, não se sabe de fato nada.