domingo, 14 de março de 2010

Meu passado me apressa.

Nesse tempo as paredes eram mais leves. A gente brincava de inventar todo dia uma nova maneira de mudar as coisas. Estão todos juntos na foto, mas haviam muitos grupinhos e fragmentações. A foto em si já expõe uma falta pois a turma não está completa. Não consigo lembrar o nome de um menino e isso me violenta. Me violenta o fato de não ter mais a bolsinha de moedas que usava pendurada na cintura. Me violenta pensar nessas pessoas, nos que estão fazendo nesse momento. Eu olho para essa foto e tenho a necessidade de correr.

meu passado me ordenha

disse a vaca ao saber que a partir daquele dia, seus leites seriam dispensados.

perguntou ao querido boi, seu macho.

o que fazer?

se vira.

a culpa é de quem?

da soja.

quem é soja?

uma piranha qualquer.

e eu não sou melhor?

você?

sim. não sou?

entre você e um corrimão, eu prefiro o corrimão, porque ele não tem sentimentos.

como?

come.

e comeu o resto de grama que havia para comer.

ofendida, ainda, com a grama reluzindo na dentição, perguntou ao macho.

o que é que ela tem que eu não tenho?

ela quem, mulher?

a soja.

o que é que ela tem que você não tem?

sim. pois diga.

bom, o que ela tem eu não sei. mas o que você tem que ela não tem eu saberia dizer.

e o que é? perguntou sorrindo por dentro. pré-orgulhosa.

colesterol. e gordura.

escroto.

você disse alguma coisa?

não.

fique tranquila. um dia, quem sabe, serás uma vaca mecânica.

nem que a Vaca tussa.

quem?

a Vaca. a grande Vaca nossa Deusa Musa.

que que tem?

nem que ela tussa.

ela está gripada?

aff.

que foi?

eu sou vaca orgânica. não mecânica. essa onda de soja não vai pegar.

é. só que pelo o seu leite é que não vão mais pagar.

e morreu pobre, usada e com as tetas machucadas. de tanto ser sugada, chupada, volvida e molestada.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O casulo não mora ao lado.

eu queria abrir meu casulo, mas não o posso fazer. na verdade, não tenho mais um casulo. eu perdi o meu espaço assim que precisei deixar de regá-lo por alguns dias durante a semana. eu perdi meu espaço quando atravessei a ponte no sentido niterói-rio e tudo tranformou-se em definitivo. vim passar meus dias em um apartamento em copacabana, bairro que eu amo e sempre desejei morar. esse apartamento não é meu e as coisas que nele estão posicionadas também pouco dizem de mim. sinto-me bem lá, mas não satisfeito. não fui eu quem escolheu as cores, os móveis e todo o resto. sou amado, compreendido, conversado e interessado. lá aprendi a me preocupar mais com a minha saúde, a ter regras, a conviver com pessoas que são pessoas e se magoam mesmo com a falta de um telefonema. lá aprendi a lavar os pratos, a ter horas para fazer as coisas, a pagar algumas contas, a ir ao banco, a marcar meus médicos e até fazer uns supermercados. amadureci. foi e ainda é um tempo bom. do meu casulo de copa gosto das janelas, do vento forte que passa por lá durante a noite. gosto dos cigarros sempre acesos, da janta quentinha, da farofa com passas, das intermináveis conversas sobre jung, sobre a criança interior, sobre filmes, livros e novelas. gosto do amor que aprendi a cultivar, da maneira em que me sinto querido. a gente em copa é feliz. por outro lado, o coração de copa não permite furos. não permite muitas saídas e, ás vezes, não compreende o tempo dos jovens, o meu tempo. ás vezes não compreende a noite e a bebedeira que não tem e nem deve ter hora para acabar. por esses motivosfui ganhando alguns outros casulos... o primeiro deles foi na urca, mas já passei também por botafogo, largo do machado, vila isabel e outros lugrares. tudo isso pede sempre mochilas, roupa lavada, livros, um peso danado para transportar. um cansaço que é mais intelectual do que físico. o tempo passou e ainda passa e a necessidade de ter um casulo só meu cresce. mas para se ter um casulo é preciso ter dinheiro para sustentá-lo. não o tenho. então parece que vou vivendo assim...com tudo empacotado, tudo em caixas para abrir quando o meu casulo chegar. uma amiga fez a proposta de morarmos juntos em sua casa nova. mas ainda não sei. não sei se seria o casulo ideal, quer dizer, eu não acredito em coisas ideais. mas no momento o que posso dizer sobre isso é que não sei. tenho vontade, estou pensando. o tempo vai dizer as coisas. no mais, tenho dois casulos grandes e alguns pequenos e as caixas. a maior parte das coisas que trouxe de buenos aires não cabem em nenhum desses casulos. talvez , a viagem tenha também contribuido para o aumento desta minha necessidade. quando disse, outro dia, que me faltavam paredes era sobre isso que estava falando. não era poesia nem muito menos uma brincadeira com as palavras. era um fato - cruel e concreto. tenho dois quadros lindos, quatro série de fotografias, alguns posters, mas não tenho onde pendurá-los. acho que vou começar comprando o que posso: prego, martelo e moldura.

meu passado me coordena.

 

foto7

e viva a sociedade do

inspetáculo.